sábado, 20 de junho de 2009

Entrevista com Jorge Mautner


Jorge Mautner
Compositor, escritor, poeta, músico e “filósofo de plantão”
Realizada no dia 09/10/07
Nas dependências do Sesc Pompéia


- Para você, o que é cultura marginal?

Eu diria que a cultura marginal é na verdade o nome da cultura em geral, eu não dividiria cultura marginal, cultura oficial.
Se você consultar até a História da Abril Cultura nos anos 60, 70, 80, ou até a História do Brasil do Jornal Folha de São Paulo ou Larousse, eu estou lá como o sendo iniciador disso, acabando com essa separação ao deslocar a produção social do nível da rebelião e acabando com a divisão entre a arte erudita e a arte popular, entre a arte acadêmica e a arte marginal. A música caipira era inferior, Mozart era superior, então nos meus livros eu faço já essa mistura, que hoje em dia se tornou um “kaos”, a qual colocava Araci de Almeida igual a Beethoven, discutindo por igual todos os arquétipos da cultura.

-Quando ela se originou?Na década de 60?

Então.. para mim, você tem razão de dizer que a cultura marginal nasce daquela época que a cultura acadêmica dominava muito, isso foi na década de 50: 1950, “Deus da Chuva e da Morte”, começou o Tropicalismo.

A mistura das coisas existe na natureza num plano assim digamos inferior num patamar bem... (gesto para baixo) que é caos com “c”, na hora que você, em vez de quebrar a cara do outro, você eleva para uma condição de discussão, ou uma disputa eclética, uma condição de arte, de música, festival, você elevou o conflito no nível de kaos com “k”, que gera essa discussão.
Só quero dizer então que esse programa, o musikaos é fantástico porque ele foi o primeiro programa a colocar o “rap”, entre os mais importantes. Inclusive eu até falei com “rapistas” e eles falaram: “Nóis é Literatura”. Aquela vontade do Brasil mesmo sem nem saber quase escrever, fazer uma poesia e, rimada, funk, tudo que é arte não considerada e consagrada se apresenta aqui, por igual respeitando as diferenças, eu acho que isso e o kaos com “k”.

- Você acha que a cultura Underground Tem seu valor social?

A cultura underground então tem seu valor social e é capaz de mudar alguns parâmetros sociais, a cultura sempre modificou. Por exemplo, Robert Marcuise, que é um filósofo, ele dizia que Mozart estava enregelado nos museus, nas academias e nas salas de concerto, então ele tinha que ter trazido para as ruas. E era o “jazz” que estava nas ruas, era o rock, e o próprio Mozart, ele era revolucionário, ele era a favor da Revolução Francesa, das Monts de Fígaro, e ele mesmo fazia muito “jazz”. Descobriu-se recentemente que Bach, Beethoven, Mozart faziam muito improviso, então a cultura é isso, é a Revolução Cultural, acho que é a maior esperança do planeta é isso...

- Como você vê a relação entre a cultura Marginal e a acadêmica?

A cultura marginal é bem mais espontânea, não fica dentro dos parâmetros. Mas não faria mal à cultura marginal, ou underground, se informar também um pouco mais da cultura acadêmica e a cultura acadêmica também se informar um pouco dessa cultura marginal. E deviam se fundir porque uma enriquece a outra, e vão se fundir em um futuro próximo, não há dúvidas. Eu já vi “rap”, por exemplo, que tem acordes de violão, já vai sofisticando.